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Técnicas de conservação na meia-encosta

De início já se alerta que nas meia-encostas ou partes destas que apresentem declividade superior a 100% na sua linha de maior declive, o que corresponde a 450, tem, necessariamente, por força de lei, que ser preservada, não permitindo o seu uso de nenhum tipo, por ser considerada Área de Preservação Permanente (APP). 

Esse é o plano que efetivamente faz a captação contribuindo muitíssimo mais do que os outros para o armazenamento da água na bacia hidrográfica. Assim, é a água que penetra na meia encosta e torna-se subterrânea depositando e acumulando-se nos horizontes profundos do solo, que se constitui a água utilizável numa propriedade ou bacia hidrográfica por ser, lentamente, disponibilizada aos mananciais de coleta, que podem ser nascentes, poços, ribeirões ou rios.
Assim, no nosso caso, sob o aspecto de conservação da água, o solo de meia encosta deve ser entendido como uma esponja que quanto mais estiver apto a sorver a água da chuva mais estará contribuindo para a preservação dos recursos hídricos no âmbito da propriedade ou da bacia.
É como se fazer um armazenamento para o tempo de escassez.

Duas estratégicas norteiam o sucesso da eficiência hidrológica da meia encosta:

   1) Aumentar a rugosidade do solo, ou seja, obstáculos que aumentem o tempo de contato da água com a superfície do solo;
   2) Aumentar a capacidade de infiltração e percolação da água no solo.

 

1) Aumento da rugosidade do solo


A estratégia de aumentar a rugosidade do solo nada mais é do que usar técnicas e estruturas que aumentem o tempo de contato da água com a superfície do solo quando há uma precipitação.
Uma vez que isso é conseguido, ao mesmo tempo, se estará inibindo ou minimizando o escorrimento superficial e, com isso, o processo erosivo do solo.
Essa é a razão pela qual quando se fala em conservação de água, se emprega muitos conceitos e estratégias preconizados para a  conservação de solos.
A escolha dos métodos/práticas é feita em função dos aspectos físicos dos solos, ambientais e sócio-econômicos de cada proprietário, propriedade e região. Ou seja, a eleição da ou das melhor(es) alternativa(s) depende do estudo de caso, devendo-se procurar o auxilio de um profissional.
Didaticamente pode-se dividi-las em:

   Práticas Vegetativas
   Práticas Edáficas
   Práticas Mecânicas

De cada grupo apresenta-se aqui apenas algumas das práticas mais empregadas.

 

Práticas Vegetativas

As práticas vegetativas referem-se às estratégias que visam, tanto a proteção do solo contra o impacto da gota da chuva que resultaria no celamento superficial, impedindo a infiltração, como servir de obstáculo ao escorrimento de água superficial, como, ainda, promover as condições de percolação da água através do perfil do solo.
A cobertura vegetal do solo é a principal estratégia desse grupo e a inicial que deve ser sempre considerada.
Como exemplos tem-se:

Florestamento e reflorestamento


Áreas muito suscetíveis à erosão e de baixa capacidade de produção devem ser mantidas recobertas com vegetação permanente, utilizando-se o florestamento ou reflorestamento. Sob o aspecto hidrológico, a exemplo da mata de topo de morro, o reflorestamento nas áreas declivosas é a melhor estratégia para se aumentar a infiltração e se evitar escorrimento superficial morro abaixo.

Plantas de cobertura, adubação verde


A adubação verde é a prática pela qual se cultivam determinadas plantas (normalmente leguminosas), tanto com a finalidade de impedir o impacto direto das gotas de chuva sobre o solo, como de incorporá-las, proporcionado melhorias nas propriedades físicas, químicas e biológicas desses.

                  Área protegida no inverno com Crotalária juncea e área sem a proteção da cobertura vegetal, com processo erosivo

Cobertura morta


É o uso de resíduos vegetais ou outros na cobertura do solo, com os objetivos principais de evitar o impacto das gotas da chuva diretamente na sua superfície, bem como a conservação da sua umidade. Uma das práticas agrícolas de maior sucesso e que aplica, dentre outras coisas, os benefícios da cobertura vegetal morta é o plantio direto.

Rotação e sucessão de culturas


Prática já bastante difundida objetivando, principalmente, a recomposição dos nutrientes no solo e a estabilidade da população dos seus microrganismos. Sob o aspecto hidrológico, propicia e prolonga o tempo de cobertura vegetal e, conseqüentemente, o de proteção do solo, minimizando a erosão hídrica, além de melhorar suas condições físicas.

Manejo de pastagem / Controle de pastoreio


Consiste em retirar o gado de uma pastagem quando as plantas ainda recobrem toda área. Se descoberto o solo e exaurida a área, formam-se pontos de inicio de erosão hídrica, originando os sulcos de erosão. Esse cuidado é particularmente importante em regiões declivosas de pastagem, como no sul de Minas Gerais.

Pastagem exaurida e degradada

Quebra vento e bosque sombreador


Quebra-ventos arbóreos são definidos como barreiras constituídas de renques de árvores dispostos em direção perpendicular aos ventos dominantes. Essas barreiras quando plantadas na proteção de lavoura, tem a função de ao reduzir a velocidade do vento, reduzindo a evapotranspiração da cultura e conservando mais a umidade do solo.

 

Emprego de quebra-vento

Plantio em faixa de retenção / Cordões de vegetação permanente


São fileiras de plantas perenes de crescimento denso, de largura específica, dispostas em contorno e niveladas entre faixas de rotação. Algumas espécies recomendadas: cana-de-açúcar, capim-vetiver, erva-cidreira, capim-gordura, capim elefante, etc.

 

                                                           Cordão de contorno em área de plantio direto 

 Práticas Edáficas

Cultivo de acordo com a capacidade de uso do solo


As terras devem ser utilizadas em função da sua aptidão agrícola, que pressupõe a disposição adequada de florestas/reservas, cultivos perenes, cultivos anuais, pastagens, etc, racionalizando, assim, o aproveitamento do potencial das áreas e sua conservação.

Uso criterioso do fogo


O fogo quando aplicado indiscriminadamente é um dos principais fatores de degradação do solo e do ambiente.

 

                                                          Queima da matéria orgânica executada pela prática do fogo.

Práticas Mecânicas

Preparo do solo, plantio e práticas mecanizadas executadas em curva de nível


É a primeira medida a ser adotada e uma das mais simples e de grande eficiência. Neste método todas as operações de preparo do terreno, balizamento, semeadura, etc, são realizadas em curva de nível.  O usual é associá-la com outras praticas conservacionistas, exigindo aplicação de sistematização do trabalho de preparo do solo anterior à sua execução, prevendo-se a formação de terraços, arações, escarificações, etc. também realizadas em nível.

Plantio e práticas culturuais mecanizadas executadas em curva de nivel.

Cultivo mínimo


É o uso minimizado de máquinas agrícolas sobre o solo, com a finalidade de menor revolvimento e compactação, buscando-se preservar a porosidade, principalmente superficial e, com isso, a sua capacidade de infiltração da água.

Plantio direto


É a implantação de uma cultura diretamente sobre a resteva de outra com a finalidade de manter o solo coberto evitando o impacto da gota da chuva.

                                                                              

                                                              

                       Prática do plantio direto: Terreno com a cultura do milho recém colhido; máquina de plantio direto em ação;

                                  cultura do trigo já em desenvolvimento e detalhe da proteção da palhada da cultura anterior.

 

Carreadores e estradas planejadas


A distribuição racional dos caminhos pressupõe colocá-los, ao máximo, no sentido do contorno fazendo-os funcionar como verdadeiros terraços, ajudando a defender as culturas contra erosão. O planejamento dessas vias deve ser feito juntamente com do sistema de terraços, buscando-se possibilitar acesso a todas a áreas de produção, durante todo o ano. As estradas principais devem estar localizadas em divisores de água para se dirigir o escorrimento aos terraços em vez de escorrer pelo seu leito. Já os carreadores devem estar situados na área imediatamente abaixo do dique do terraço, oposto ao canal.

                                                                Estrada sem planejamento e estruturas de proteção

Subsolagem


Um manejo inadequado do solo pode levar ao aparecimento de uma camada subsuperficial impermeável, ou menos permeável, impedindo a água de percolar e promover a recarga do lençol subterrâneo. A subsolagem é o rompimento dessa compactação subsuperficial, quebrando-se a camada profunda adensada (p. ex., pé de arado ou de grade).

Terraceamento


Os terraços são sulcos ou valas construídas transversalmente à direção do maior declive, sendo construídos, basicamente, para controlar a erosão e aumentar a umidade do solo. Os objetivos dos terraços são:

  1. Diminuir a velocidade e volume da enxurrada;
  2. Diminuir as perdas de solo, sementes e adubos;
  3. Aumentar o conteúdo de umidade no solo, uma vez que há maior infiltração de água;
  4. Reduzir o pico de descarga dos cursos d’água e
  5. Amenizar a topografia e melhorar as condições de mecanização das áreas agrícolas.

Os terraços classificam-se, quanto a sua largura, em base estreita, base média, e base larga - Nesses tipos soma-se, quanto ao tipo de construção, os terraços em patamar e banquetas individuais.
A seleção do tipo de terraço a ser construído, assim como seu dimensionamento, sua locação e sua construção devem ser feitos por profissionais qualificados.

 Áreas de plantio apresentando terraceamento.

 

Estruturas complementares do terraceamento


Principalmente em áreas declivosas, não basta apenas o sistema de terraceamento na área de cultivo, esquecendo-se as influencias de contorno. Por isso, muitas vezes, é necessária a construção de cordões de contorno, também chamados canais divergentes. São pequenos terraços de base estreita que interceptam o escorrimento superficial proveniente de uma área de nível superior, desviando-o até desaguadouros ou canais de deságüe. Tanto os cordões de contorno como os demais terraços podem estar associados também, a desaguadouros, ou caixas de captação.

Estruturas de contenção de Voçorocas


Uma vez iniciado a degradação do solo o processo segue um modelo seqüencial: ocorre encrostamento superficial, instala-se a erosão laminar, segue-se a formação de sulcos, ravinas e, por fim, voçorocas. Voçorocas são sulcos de erosão de grandes dimensões cuja recuperação, na maioria das vezes, é um processo lento e oneroso devendo-se recorrer à uma associação de procedimentos práticos, tais como o fechamento da área, construção de um canal divergente na cabeceira ou cordões de contorno, suavização dos taludes, implantação de vegetação protetora e construção de paliçadas dentro e fora da Voçoroca, transversal ao curso da água.
Adicionalmente, tanto dentro como fora das voçorocas, se devem construir paliçadas que têm a função de quebrar a força da enxurrada e reter os sedimentos.

 

                                                                               

                      Estágios de erosão do solo: Formação inicial de sulcos; evolução para o estágio de ravinas.

 

2) Aumento da capacidade de infiltração e percolação da água no solo.

 
No aumento da capacidade de infiltração e percolação da água no solo, deve-se interferir, através de práticas agrícolas adequadas, nesses principais parâmetros físico-hídricos do solo envolvidos:
 
Densidade e porosidade do solo. Os solos possuem diferentes densidades pela variação de textura, da porosidade e do conteúdo de matéria orgânica, podendo variar de 1,20 a 1,80 g.cm-3 e porosidade de 35 a 50%, em solos arenosos, para densidade de 1,00 a 1,60 g.cm-3 e porosidade de 40 a 60%, nos argilosos. Esses dois parâmetros, avaliados nas camadas subsuperficiais, são utilizados para indicar o efeito do tipo e intensidade de preparo do solo sendo que o aumento da densidade leva à uma menor capacidade de infiltração de água no solo.
 
              Estrutura do solo. A estrutura é função da ordenação das partículas de areia, limo argila na forma de agregados, determinando o espaço poroso. Exerce influencia na quantidade de água armazenada, no volume de ar para as raízes, disponibilidade de nutrientes e nas condições para desenvolvimento da biota do solo. Boa estrutura significa adequada quantidade e distribuição de tamanhos de espaço poroso e, conseqüentemente, maior retenção de água.
 
             Taxa de infiltração de água no solo. Ë o principal indicativo e a conseqüência final das adequadas características físico-hídricas do solo. É condicionada pela estrutura da superfície do solo, sua permeabilidade nos diversos horizontes subsuperficiais do solo, capacidade de armazenamento do perfil e característica do fluido. O tipo de cobertura vegetal, sistemas de cultivo e o preparo dos solos influenciam enormemente esse parâmetro. A conseqüência do insucesso na promoção da capacidade de infiltração do solo chama-se o escorrimento superficial.