A vinhaça, vinhoto, restilo, caldo ou garapão é o resíduo final da fabricação do álcool etílico por via fermentativa, numa taxa de 13 litros de vinhaça por litro de álcool produzido.
È uma água residuária que possui alto poder poluente e alto valor fertilizante.
Os mesmos elementos que lhe conferem o poder poluente lhe dão as características de um bom fertilizante: a matéria orgânica e teores significativos dos macronutrientes nitrogênio, fósforo e o potássio tornado-o, comparativamente, com um potencial poluidor de cerca de cem vezes a do esgoto doméstico e um substituto altamente vantajoso, economicamente, dos fertilizantes químicos.
Como se não bastasse, juntamente com a água residuária da suinocultura, é um dos mais volumosos efluentes da atividade produtiva agrícola.
Completando a descrição básica das suas qualidades, devido às suas características químicas o seu processo de estabilização deve ser empregado tratamentos diferenciados dos usualmente empregados nas outras águas residuárias.
Na evolução de seu emprego e destino, foram notórios e disseminados os desastres ambientais causados no tempo em que era simplesmente jogada nos rios.
O processo que se seguia era de eutrofização (superfertilização) das águas, promovendo superdesenvolvimento de plantas aquáticas, algas e microorganismos que, por sua vez, aumentava, desequilibradamente, o consumo de oxigênio dissolvido na água – consome-se elevadas taxas do oxigênio dissolvido para a oxidação da matéria orgânica introduzida no meio pela vinhaça, fenômeno quantificado pelo parâmetro Demanda Bioquímica de Oxigênio (D.B.O.) – resultando, dentre outros efeitos nocivos, na mortandade de peixes que não dispunham mais de oxigênio na água para respirar.
Como outros efeitos nocivos, a vinhaça despejada nos rios trazia a ocorrência da malária e dengue, pelo aumento da população de pernilongos, bem como aparecimento de doenças de veiculação hídrica como amebiose e esquistossomose.
Atualmente, o despejo da vinhaça nos corpos d’água é terminantemente proibido, não devendo haver, no Brasil nenhuma destilaria que o faça.
Sua utilização, muito mais racional ambiental e economicamente é como fertilizante para a própria cultura da cana através da prática que combina a irrigação com a aplicação de fertilizante, denominada fertirrigação.
Aplicada in natura, por vezes, após um simples processo de resfriamento e decantação em lagoa de recepção, a quantidade de aplicação por unidade de área deve ser muito bem calculada, tendo-se como parâmetros tanto a quantidade exigida e que vai ser efetivamente consumida de seus macronutrientes pela cultura como também o teor de matéria orgânica.
Em relação aos macronutrientes, quando da utilização de uma água residuária na fertirrigação, o cálculo deve ser feito com base no elemento de maior teor. No caso da vinhaça é o potássio. O calculo criterioso levando à aplicação, exatamente, da quantidade que a planta, naquele período de tempo, retirará do solo, evitará a sua saturação e poluição bem como uma possível lixiviação dos elementos e conseqüente contaminação das águas subterrâneas.
Se o fator limitante for a matéria orgânica, o calculo deve ser para a quantidade que o solo suporta receber e que vai, sob equilíbrio da biota do solo, promover a posterior degradação e a incorporação dessa na forma de húmus. Esse húmus, como um condicionador natural, irá promover as características físico-hídricas do solo, beneficiando, dentre outros, o aumento da sua capacidade de infiltração da água das chuvas, promoção da recarga das águas subterrâneas e minimização da erosão.
Assim, uma vez realizada com critério, apresenta efeitos muito positivos, agronomicamente (sobre a produtividade agrícola, na produção de açúcar por hectare e no aumento do número de cortes) bem como nas características físico-químicas do solo resultando, num ótimo balanço econômico da atividade.
Ainda em relação ao manejo da aplicação da vinhaça pela fertirrigação, esse deve ser criterioso e bem estudado uma vez que a composição dos elementos na vinhaça varia em função da composição da cana, do sistema de preparo do mosto, do método de fermentação adotado, tipo de aparelho e maneira de destilação e o tipo de flegma separado.
Assim, no planejamento, deve-se contar com a ajuda de profissionais especializados.
A negligência nesses cuidados técnicos leva à saturação e poluição do solo, a criação de áreas degradadas, a percolação de elementos químicos com a conseqüente contaminação das águas subterrâneas e, com isso, o aparecimento de doenças em usuários tais como a Metahemoglobinemia, causada pela ingestão excessiva de nitrato promovendo a perda da capacidade dos glóbulos vermelhos do sangue de transportarem o oxigênio, levando o contaminado à morte.
Em função de tudo isso é que muita atenção deve ser dada às regiões canavieiras assentadas em aqüíferos de águas subterrâneas, principalmente se for área de recarga, como é o caso das regiões de Ribeirão Preto, Pantanal Mato-grossense, baixo Piracicaba e outros – pontos de recarga do maior aqüífero de águas subterrâneas do mundo: o Ouro Azul Aqüífero Guarani.
Técnicas de Aplicação
A mais difundida forma de aplicação hoje é pelo método da aspersão, combinando economicidade, eficiência e uniformidade de aplicação.
De modo geral, de acordo com o esquema abaixo, o sistema todo é formado por:
- Areas de segurança, formadas por duas estruturas:
a) uma lagoa-depósito para o armazenamento temporário da vinhaça para quando, por uma razão ou outra, a vazão de aplicação da vinhaça no campo foi diminuída ou interrompida. Nessa ocorre a decantação dos sólidos grosseiros em suspensão, que pode ser aplicado, após secagem, também na lavoura, bem como uma perda de água da água residuária, favorecendo o processo posterior de condução e econômica na distribuição. Dado às suas funções, normalmente, é raso e de grande superfície.
b) a(s) “área(s) de sacrifício”, em que a vinhaça, emergencialmente, pode ser aplicada para infiltrar no solo;
- Sistema de condução e distribuição da vinhaça para a área de lavoura, constituído por tubos, canais e equipamentos de controle e desvios de fluxo;
- Sistema de aplicação, que executará a captação da vinhaça do canal e a aplicará na superfície do solo. Normalmente tem-se utilizado o método da aspersão nos sistemas de montagem direta ou autopropelido e recentemente, em menor escala, o gotejamento e;
- a área de aplicação, ou seja, a lavoura.
Como exemplo de calculo, adaptando-se o apontado por Melo, A. S. S. de A. & Silva, M. P.(1), apresenta-se, comparativamente, as quantidades de fertilizantes fornecidos pelas dosagens de 150 m³ de vinhaça/ha, usada na cana-planta, e 200 m³/ha usada na cana-soca.
Comparação entre as necessidades de fertilizantes Kg / ha e quantidades de fertilizantes fornecidos por vinhaça Kg / ha.
FERTILIZANTES
Planta
Soca
Superávit*
Necessidade
Vinhaça
Necessidade
Vinhaça
Planta
Soca
Sulfato de amônio
200
230
500
310
30
-190
Superfosfato triplo
220
48
75
65
-172
-10
Cloreto de potássio
117
302
167
403
185
236
*Superávit = quantidade de fertilizante fornecida pela vinhaça menos a necessidade de fertilizante da planta ou soca.
De acordo com os dados apresentados pelas autoras, observa-se que somente a vinhaça seria suficiente para suprir as necessidades de cloreto de potássio, tanto da planta quanto da soca; suficiente para a planta e insuficiente, em, apenas, 38% na soca em relação ao sulfato de amônio e, por fim, insuficiente, nas duas fases em relação ao superfosfato triplo.
No entanto, verifica-se que, apesar de insuficiente, a economia com fertilizantes seria significativa.
Isso é mostrado na tabela abaixo que compara os custos com fertilizantes da cana de sequeiro com os custos com a fertirrigação com vinhaça. Observa-se que o custo com fertilizante da cana fertirrigada com vinhaça representa apenas 32,9% do custo da cana de sequeiro.
FERTILIZANTES
Custos em R$ da cana de Sequeiro
Custos em R$ da cana
Fertirrigada
Planta
Soca
Total
Planta
Soca
Total
Sulfato de amônio
29,00
72,50
101,50
-
27,55
27,55
Super fosfato triplo
72,60
25,00
97,60
56,76
3,34
60,10
Cloreto de potássio
27,84
39,80
67,64
-
-
-
Total
129,44
137,30
266.74
56,76
30,89
87,65
FONTE: Adubos Agrofértil S/A – julho de 1998. * Preços dos fertilizantes por tonelada: Sulfato de amônio
(1) Melo, A. S. S. de A. & Silva, M. P. Estimando o valor da “externalidade positiva” do uso da vinhaça na produção de cana de açúcar: um estudo de caso. (www.ecoeco.org.br/pdf/e4_m4_a2.pdf)
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